Cerca de 40 imigrantes venezuelanos se reuniram na tarde deste domingo (4), em Campo Grande, para celebrar a prisão do ex-ditador da Venezuela, Nicolás Maduro. O grupo comemorou o desfecho ocorrido no sábado (3), quando Maduro foi detido durante uma operação militar conduzida pelos Estados Unidos, fato que reacendeu a esperança de mudanças profundas no cenário político do país sul-americano.
Portando faixas, bandeiras da Venezuela e cartazes com mensagens de apoio à democracia, os manifestantes se concentraram na Praça do Rádio Clube. O ato teve caráter pacífico e simbólico, marcado por discursos emocionados, cânticos e relatos pessoais de quem deixou a Venezuela forçado pela crise política, econômica e humanitária. Para muitos, a prisão de Maduro representa o início de uma nova fase e a possibilidade concreta de reconstrução institucional do país.
Mesmo diante da expectativa de transformação política, parte dos participantes afirma não pretender retornar à Venezuela. Muitos já reconstruíram suas vidas no Brasil, onde encontraram segurança, trabalho e estabilidade após anos de incertezas. Atualmente, Campo Grande abriga cerca de 5 mil refugiados venezuelanos, enquanto o número em todo o Mato Grosso do Sul chega a aproximadamente 12 mil.
A presidente da Associação Venezuelana de Campo Grande, Mirtha Carpio, destacou que o regime chavista foi responsável por um longo período de fome, repressão e sofrimento generalizado. Ela deixou a Venezuela em 2008, após sofrer perseguição política, e afirma que a situação no país se deteriorou ainda mais ao longo dos anos.
“Posso resumir tudo em pobreza extrema. As pessoas estão saindo do país doentes, porque não há medicamentos, não há comida, não há o mínimo para sobreviver. O sistema destruiu completamente a dignidade da população. Para nós, este momento representa a celebração do início de uma transição rumo à liberdade”, afirmou.
Estabelecida em Campo Grande, Mirtha diz não ter planos de retornar à terra natal, por considerar que construiu uma vida estável no Brasil. Na avaliação dela, a presidente interina Delcy Rodríguez deve assumir a condução do processo de transição política.
“Imagino que será um período complexo, que exigirá muita administração, diálogo e cooperação internacional. Ela [Delcy] deverá atuar como uma coordenadora desse processo, inclusive com apoio dos Estados Unidos. A partir disso, será necessário dar continuidade às reformas e reconstruir as instituições”, opinou.
Outra participante do ato foi a cientista política Lourdes Montilla, que deixou a Venezuela há oito anos para escapar da perseguição política. Antes de se estabelecer no Brasil, onde vive há três anos, ela passou cinco anos no Peru. Lourdes relembra com pesar os momentos mais críticos vividos ainda em seu país de origem, quando a fome se tornou parte da rotina.
“Houve momentos em que precisei comer comida de cachorro para sobreviver. Esse é o nível de degradação a que chegamos”, relatou.
Ela descreveu com emoção o momento em que assistiu à prisão de Maduro. “Não foi um ataque ou um bombardeio, como muitos imaginam. Foi a extração de um ditador. Eu chamo de uma operação cirúrgica: precisa, direta e objetiva. Isso é algo extraordinário, porque evitou um colapso maior. Sempre existem danos colaterais, mas, infelizmente, esse é um preço que o povo venezuelano já paga há muitos anos”, afirmou.
O ato em Campo Grande terminou com aplausos, orações e mensagens de solidariedade ao povo venezuelano, em um clima de esperança cautelosa quanto aos próximos passos do processo político no país.