quinta-feira, 3 de julho de 2025

Cooperativismo impulsiona desenvolvimento e inclusão em Mato Grosso do Sul

 


Reunindo 137 cooperativas e gerando mais de 15 mil empregos diretos, o cooperativismo se consolida como um dos pilares de inclusão social e desenvolvimento econômico em Mato Grosso do Sul. O setor impacta positivamente a vida de mais de 660 mil cooperados — o equivalente a cerca de um quarto da população sul-mato-grossense.

A relevância do cooperativismo na estratégia de desenvolvimento estadual foi destacada nesta terça-feira (2) pelo secretário de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Jaime Verruck, durante evento realizado na Assembleia Legislativa em alusão à Semana do Cooperativismo. A solenidade também contou com a presença do secretário-executivo de Desenvolvimento Econômico da Semadesc, Rogério Beretta.

O evento foi promovido pela Frente Parlamentar de Defesa do Cooperativismo, coordenada pelo deputado estadual Professor Rinaldo Modesto (Podemos), em parceria com o Sistema OCB/MS (Organização das Cooperativas Brasileiras em Mato Grosso do Sul).

Durante seu discurso, Verruck ressaltou que o cooperativismo está diretamente inserido nas diretrizes de desenvolvimento do Governo do Estado. “Acreditamos que o cooperativismo tem contribuído de forma significativa para os bons indicadores de Mato Grosso do Sul”, afirmou.

Como exemplo, citou o MS Day Coop, realizado recentemente em Cascavel (PR), onde foi evidenciado o aumento dos investimentos de cooperativas paranaenses no estado sul-mato-grossense. "Há uma clara expansão, tanto na capacidade de armazenagem quanto na industrialização. Um exemplo é o investimento da Copasul, de R$ 200 milhões, em uma indústria de soja semelhante à da Coamo. O cooperativismo no agronegócio está avançando fortemente na agroindustrialização", destacou.

Além do agro, Verruck enfatizou o trabalho do governo para fortalecer o cooperativismo entre pequenos produtores. "Temos muitas associações e estruturas na agricultura familiar. Estamos atuando para organizá-las por meio do cooperativismo, que consideramos essencial", explicou.

Expansão do crédito cooperativo

O secretário também mencionou o crescimento das cooperativas de crédito no estado. Atualmente, essas instituições já têm acesso ao Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO), com 10% dos recursos destinados ao setor cooperativo.

"A OCB pleiteia ampliar esse percentual para 20%, e essa proposta já está em discussão. As cooperativas aplicam esses recursos com agilidade, o que mostra a capacidade do setor de alavancar o crédito local", disse Verruck.

Outro destaque foi o PROCOOP — Programa de Desenvolvimento das Cooperativas — criado pelo Governo do Estado em parceria com a OCB/MS. "Trata-se de uma ferramenta estratégica para estimular o surgimento e a consolidação de novas cooperativas em Mato Grosso do Sul", explicou o secretário.

Desenvolvimento local e apoio institucional

Para Verruck, a principal diferença do cooperativismo em relação a grandes empreendimentos privados está na reinversão dos recursos na própria comunidade. "Enquanto grandes empresas frequentemente remetem recursos para fora do estado, as cooperativas os mantêm circulando na economia local, promovendo desenvolvimento sustentável e geração de renda", argumentou.

Ele também elogiou a atuação da Assembleia Legislativa por meio da frente parlamentar do cooperativismo. “O envolvimento de todos os deputados estaduais no fortalecimento do setor mostra o reconhecimento do Legislativo quanto à importância das cooperativas para o futuro do estado”, afirmou.

Por fim, o secretário reforçou que o Governo do Estado continuará apoiando a atração de cooperativas de outras regiões e incentivando a expansão daquelas já instaladas. “O ambiente de parceria entre o poder executivo e a OCB cria as condições ideais para que o cooperativismo continue crescendo de forma robusta em Mato Grosso do Sul”, concluiu.


terça-feira, 17 de junho de 2025

“A Praça é o Último Lar”: Pessoas em Situação de Vulnerabilidade Social na Ary Coelho Falam Sobre Abandono, Saudades e Disputa por Abrigo em Campo Grande

A Praça Ary Coelho, no coração da capital sul-mato-grossense, é diariamente atravessada por centenas de pessoas — mas para outras dezenas, ela é o próprio destino. Para quem vive em situação de vulnerabilidade social, o local é abrigo improvisado, espaço de convivência forçada e, sobretudo, o único lar possível diante do abandono do poder público.

A reportagem percorreu a praça em uma manhã fria de 15 de junho e conversou com algumas dessas pessoas, que relataram suas histórias com franqueza e emoção.

 “Essa Campo Grande não é mais a da minha infância”

 

Zé Milton, de 61 anos, observa o centro da cidade com ar melancólico.

“Eu nasci aqui. Essa cidade era rica, limpa, tinha emprego pra todo mundo. Hoje tá cheia de prédio e cheia de miséria. Essa Campo Grande não é mais a que eu conheci quando era moleque.”

Morando na rua há mais de três anos após perder o emprego como porteiro, ele sobrevive com reciclagem, mas relata que até isso tem se tornado mais difícil:

“A gente disputa latinha com todo mundo agora. Tem gente nova todo dia.”

“Mesmo doente, não deixo faltar a pensão do meu filho”

Conhecido entre os demais como Perninha, por conta de uma antiga lesão, ele vive entre bicos, o consumo de substâncias e a saudade.

“Tenho problema, sim. Com bebida, com pedra. Mas meu filho não tem culpa disso. Todo mês dou um jeito de mandar a pensão. É pouco, mas é de coração. Sinto uma falta danada dele. Mora lá em Sidrolândia. Meu sonho é ver ele de novo.”

A fala é carregada de emoção, revelando um senso de responsabilidade que resiste, mesmo diante das adversidades da vida na rua.

Disputa por abrigos e a convivência com os imigrantes

Nos dias frios, a busca por um abrigo se torna ainda mais urgente, mas as vagas nos albergues municipais são, segundo os entrevistados, insuficientes.

“Quando a gente vai, já tá cheio. Tem muito haitiano, muito venezuelano. A gente entende, né? Quem tem criança precisa mais ainda. Criança não pode pagar pelos erro dos adulto”, comenta Carlos, 52 anos. “Mas às vezes a gente pensa: e quem nasceu aqui? Será que não tem mais lugar pra nós também?”

As falas são permeadas por um misto de solidariedade e frustração. As pessoas compreendem a gravidade da situação enfrentada pelos imigrantes, mas se sentem deixadas para trás por uma política de acolhimento que, para elas, é seletiva.

Deputada Camila Jara comenta demandas

 

Durante o ato em solidariedade ao povo palestino, realizado no último domingo (15) na própria Praça Ary Coelho, a equipe de reportagem aproveitou a presença da deputada federal Camila Jara (PT-MS) para levar até ela as queixas relatadas pelas pessoas em situação de vulnerabilidade social que vivem no local.

Jara demonstrou preocupação com a situação e afirmou que os abrigos e programas de acolhimento têm enfrentado desafios logísticos diante da crescente demanda. “Sabemos que há sobrecarga nos centros, e por isso estamos buscando parcerias. Precisamos de uma resposta integrada, que trate desde a saúde mental até a capacitação para o trabalho”, afirmou.

Ela também destacou que, no caso dos imigrantes, muitos chegam ao Brasil com formação técnica ou superior. “Temos médicos, engenheiros, professores. Essas pessoas podem ser reinseridas rapidamente no mercado, o que facilita o processo de acolhimento. Já no caso das pessoas que estão nas ruas há anos, com histórico de dependência, abandono e traumas, o trabalho precisa ser mais profundo e cuidadoso.”

 Um cotidiano de espera

Enquanto os discursos políticos tentam encontrar solução para problemas estruturais, o tempo passa de forma crua para quem vive nas calçadas. A saudade de casa, o medo do frio e a luta por dignidade marcam cada dia na praça.

Como disse Perninha, ao fim da conversa depois de pedir um cigarro à equipe de reportagem: “Ninguém escolhe isso aqui. Mas a gente ainda ama, ainda sonha. A praça é o que sobrou pra quem não tem mais onde cair vivo.”